Cresci eu, social-democrata de gema, num soviete agressivo e constrangedor, agarrada a figuras imortais que me enchiam de esperança e me levavam momentaneamente para fora do meu pacato bairro.
Uma dessas figuras foi o menino Zé Manel, um rapaz franzino, de espírito livre, fervoroso sócio do Ginásio Clube do Sul e frequentador da biblioteca da SFUAP, onde ia passar o tempo a ler livros do Mau Tzé Tung. Passeava ocasionalmente pelas avenidas de Lisboa, exigindo a libertação de Arnaldo Matos e, uma vez por outra, pilhava a reitoria da Clássica por achar que os móveis ficavam melhor na sede do MRPP, chateando o professor de Direito, Rebelo de Sousa.
Foi este mesmo jovem, que algum tempo depois, se aborreceu com esta vida instável e aderiu ao PSD após a morte de Sá Carneiro. Outro pulo no tempo e o jovem idealista tornou-se Presidente da Comissão Europeia.
Inesperadamente, passo agora as férias a pensar o que lhe ou dizer quando o apanhar num corredor em Bruxelas. Conto os dias para a grande aventura da confrontação entre estas duas vivências que têm um ponto em comum: uma terra alentejanada onde nada acontece e muitas histórias ficaram por contar.
Fica aqui o texto escrito por José Manuel Durão Barroso, vencedor do prémio atribuído no âmbito das comemorações do cinquentenário do Ginásio Clube do Sul sob o lema: "Tem a Palavra a Juventude", publicado no Jornal de Almada em 1970. Até Breve!

Comentário públicado no sitío da Associação dos Antigos Alunos da Escola Emídio Navarro.
"Em 1970 o Ginásio Clube do Sul comemorou o seu cinquentenário. No âmbito das comemorações foram organizados uns Jogos Florais Juvenis, sob o lema: "Tem a Palavra a Juventude". Os vencedores receberam os prémios numa sessão cultural referida na edição do Jornal de Almada de 6 de Junho, e nesta mesma edição foram publicados os trabalhos premiados, entre os quais se conta um pequeno ensaio de um menino de 13 anos, José Manuel Durão Barroso, actual presidente da Comissão Europeia.
Tendo como título "A Escola como meio de Promoção Social", o artigo começa por referir que "Grandes homens idealizaram e continuam a idealizar a chamada «sociedade ideal». Mas, por muito geniais que sejam os homens que pensam numa sociedade melhor, a verdade é que não passam de homens e os planos por eles tão genialmente concebidos são muito dificilmente postos em prática".
Derivando depois para o papel da Escola, que o menino Durão Barroso enaltece, apresenta exemplos sobra a importância informativa e formativa de certas disciplinas, tais como a Geometria, a qual "educa o espírito, modera-o, torna as pessoas mais sensatas e fá-las fazer afirmações unicamente quando as podem provar."
O menino José Manuel talvez não tivesse ainda estudado para o exame de Geometria, porque logo a seguir faz uma afirmação difícil de provar: "É na escola, como se sabe, que surge a verdadeira camaradagem e convívio e é assim que meninos pequeninos, que dantes viviam presos ao amor maternal, são agora mais sociáveis."
Será que a escola faz os meninos mais sociáveis do que o ambiente familiar? Quase que se fica na dúvida, depois de ler o apelo com que o menino Durão Barroso finaliza o seu ensaio: "termino pedindo a todos, rapazes e raparigas, que se compenetrem da missão que a sua geração tem a realizar e que enfrentem a escola com uma cara menos enfadonha e aterrorizada."
Digam lá se não era já um discurso de líder? Uma coisa é certa: para um menino de 13 anos, em 1970, era uma bela prosa. ""